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A UMBANDA NO CONGRESSO NACIONAL ! novembro 13, 2008

Posted by raizculturablog in Cultura & Massas.
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A UMBANDA NO CONGRESSO NACIONAL !

* por Sandra Santos

 

            Há dois anos em uma conversa com o Deputado Federal Vicentinho do PT relatei os problemas que alguns membros da AUEESP passavam com a Prefeitura de SP e com alguns policiais. A saída do Deputado Tiãozinho do PT da Assembléia Legislativa tinha sido uma grande baixa para o povo do santo, pois esse sim, era um verdadeiro guerreiro e impecável na condução dos problemas das religiões de matriz africana.

            Ouvinte atento e pensativo o companheiro Vicentinho me perguntou o que poderíamos fazer de concreto para a melhoria das condições dos terreiros. Citei algumas idéias e perguntei se era difícil elaborar  um selo com a figura de Zélio de Moraes e verificar a possibilidade de uma comemoração dos 100 anos da Umbanda que se aproximava. Na mesma hora o Deputado disse que podíamos levar essa homenagem à Câmara dos Deputados e apesar da bancada evangélica veríamos o que ia dar.

             Quinze dias atrás ele me liga todo contente porque o Deputado Federal Carlos Santana do RJ havia entrado na “briga” e juntos fariam uma Sessão Solene em pleno Congresso Nacional!

             E no dia 10 de novembro de 2008, lá estávamos eu, Cássio Ribeiro da FUCABRAD e Josa Queiróz, Secretário de Habitação de Diadema e membro da FUCABRAD e da AUEESP.

            Ao chegarmos nos deparamos com presenças importantes no Plenário, estavam lá representados: Fundação Cultural Palmares, Movimento pela Anistia Política no Brasil, Secretaria Estadual de Saúde do Distrito Federal; Secretaria da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, Ministério do Meio Ambiente; APAACABE,  Ilê de Omolu Saponã, do Rio de Janeiro, Secretaria de Combate ao Racismo, UNEGRO, Partido dos Trabalhadores, Secretaria de Educação do Distrito Federal, Centro de Integração da Cultura Afro-brasileira – CIAFRO, do Rio de Janeiro, CONPAZ, Federação para a Paz Mundial, Brahma Kumaris, Legião da Boa Vontade, Tribuna Afro Brasileira entre outros.

Começa a Sessão Solene e enquanto os Deputados discursavam me passou pela cabeça momentos de tristeza, de felicidade e a lembrança de pessoas inesquecíveis que realmente trabalharam pela nossa religião.

            Diante da importância da Sessão, lembrei naquele momento da “liderança”, que costuma colocar pouco mais de 50 pessoas em suas festas, e uma vez, em um tom desdenhoso, disse que eu deveria continuar fazendo as festinhas e eventinhos que sempre fazia pelo Colégio de Umbanda e pela Associação (e olha que nossos eventos não têm menos que 2.000 pessoas!).

            Por segundos, vieram também à memória grandes figuras religiosas, amigos e conselheiros queridos como Pai Ronaldo Linares, Pai Rubens Saraceni, Mãe Cidinha Naléssio do Primado do Brasil, Pai Joãozinho 7 Pedreiras da Federação Umbandista da Grande SP, Tiãozinho do PT de Campinas, Dr. Hédio Silva, Mãe Imaculada, Paulo e Edson Ludogero, Iyás Sandra Epega e Sylvia de Oxalá, Luís Renato, Sérgio Fontes, Marcelo Pires… pessoas maravilhosas que dedicam preciosas horas de suas Vidas em prol da religião e sempre estão no combate a todos os tipos preconceitos. Bateu também uma saudade grande do Dr. Menezes Ladessa e Pai Mário Paulo, ilustríssimos ex-presidentes do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo, homens seríssimos e comprometidos com a religião de Umbanda que partiram, deixando aqui um rastro de saudade e todo seu legado.

            Enfim, essa Sessão Solene pelos 100 Anos da Umbanda, datada de 10 de novembro de 2008, ficará registrada nos anais da história e é dedicada a todas as pessoas de boa vontade, aos tolerantes, aos verdadeiros guerreiros da Umbanda, àqueles que lutam, que batalham anonimamente em seus centros, templos, casas de caridade, pessoas que resgatam diariamente o Orgulho de Ser Umbandista !

 

 

 

 

 

Aos Deputados Vicentinho e Carlos Santana, nosso imenso muito obrigado ! Agradeço também de coração aos meus irmãos, amigos de jornada e principalmente aos meus “instrutores” e renovo, (dentro dos limites de uma pessoa que mesmo não sendo médium de incorporação, ama, respeita e batalha por uma Umbanda digna e honrada) a amizade, o compromisso e a esperança com todos vocês. A luta continua. Os Direitos das Religiões de matriz africana são também Direitos Divinos. Não nos faltarão a luz e a força de Pai Zélio Fernandino de Moraes e dos nossos Amados Guias e Orixás. N’Eles abraço todos vocês. As nossas causas são as nossas vidas. Eu aceito. Ainda há esperança, assim acredito. Saravá e um grande axé à todos.

 

 

 

 

 

 

            Abaixo trechos importantes das falas dos Deputados:

 

            Iniciando a sessão o Deputado Santana convida para compor a Mesa o Prof. Perly Cipriano, Subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos; o Sr. Silvio Ramos, Presidente do CONUB; o Sr. Cássio Ribeiro, Presidente da Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema; Sandra Santos, Presidenta da Associação Umbandista do Estado de São Paulo – AUEESP e o Pai Renato de Obaluaiê, da Irmandade Religiosa e Cultural Afro-Brasileira –  IRMAFRO do Rio de Janeiro.

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om a palavra o Deputado Vicentinho: “este é um momento marcante e histórico da nossa vida, porque é a primeira vez que ocorre evento desta natureza na Câmara dos Deputados. Como os amigos sabem, sou católico apostólico romano da Teologia da Libertação e caminho com o Frei Beto nessa luta pela igualdade. Aprendi, há muito tempo, com a Teologia da Libertação, que professar uma religião é uma dádiva de Deus; que professar uma religião não é algo exclusivamente para nós, católicos, evangélicos ou espíritas. Afinal, Deus não deixou intérpretes para, através da concepção daquela religião, dizer qual o caminho mais correto… Precisamos aprender o que significa esta homenagem. Vamos ser sinceros, a Umbanda sofreu todo o tipo de perseguição, era considerada caso de polícia. Até um dia desses, para poder instalar um Templo, era necessária autorização da autoridade policial. Para sobreviverem, os representantes da Umbanda, através de sincretismo, colocaram nomes de santos da igreja católica em seus orixás e, com isso, conseguiram dar um salto adiante. O preconceito contra uma religião diferente, sobretudo uma religião vinda da mãe África, ainda é tão grande neste País que, lamentavelmente, atingiu todas as camadas da sociedade brasileira. O Luiz, meu assessor que aqui está, relatou-me que em alguns lugares em que foi colocar o cartaz com o convite para celebrar os 100 anos da Umbanda, disseram-lhe: “Não, pelo amor de Deus, não ponha isso aqui. Vamos fazer aqui uma bênção”. Imaginem, então, como é no seio da sociedade… Ao aprovar a realização desta solenidade, a Câmara dos Deputados pôs em prática o princípio maior previsto na Constituição brasileira, que diz que todos têm o direito de manifestar sua fé, de dizer o que pensa e o que quer e de fazer o bem aos outros… Deputado Carlos Santana, sei que hoje é segunda-feira, mas lamento a ausência de muitos Deputados aqui. Seria muito importante que todos aqui estivessem nos ouvindo, porque vamos ter de tomar importantes decisões a respeito do direito das religiões. Embora a Constituição reconheça esse direito muito claramente, na prática, ele não pode ser exercido verdadeiramente. Os terreiros de Umbanda ou de Candomblé têm de funcionar em casas e pagar IPTU. Por que outras igrejas não pagam esse imposto? Por que determinados veículos de comunicação fazem programas como o Descarrego, da Rede Record ? Que autoridade tem alguém para fazer um descarrego de uma religião sobre outra, meu Deus do céu !? O que é isso !? Isso é intolerância ! É intolerância! sabem o que é essa religião, que, como eu dizia, apesar de sofrer tantas perseguições e não contar com o apoio do Estado, existe, é forte e cresce…Aqui mesmo, há um grupo de orações que se reúne abertamente, sem problemas. E os irmãos evangélicos também praticam seus cultos. Por que há todo esse tipo de apoio para algumas religiões e para outras não? Por que as de matrizes africanas não têm qualquer apoio e, assim mesmo, crescem? Vale a pena refletirmos sobre isso. Companheiro Carlos Santana, conto com seu apoio à proposta que vou apresentar a este Parlamento. Vou pedir a autorização dos presentes para entrar em contato com o Governo Federal e com os Correios e propor que, por reconhecimento à importância do fato, façam um selo comemorativo aos 100 anos da Umbanda no Brasil. Deputados e caros amigos agora vou ler uma explicação acerca da fundamentação da Umbanda no Brasil, para que a comunidade tenha condição de compreender o que isso significa. Primeiro, devo sempre lembrar que quem vai a um terreiro ou a um centro de Umbanda percebe que as forças que compõem a sua fé são os elementos da natureza: a água, o fogo, a vegetação. De vez em quando, percebem-se oferendas espalhadas pelo planeta, o que deixa muitas pessoas indignadas e dizendo que vão sujar o rio, mas essas mesmas pessoas se calam diante da destruição do Amazonas e da vida na Terra por causa de interesses econômicos e capitalistas. Impressionante! Agradeço à Sandra e ao Alexandre Cumino, seu companheiro, esse texto que fala do que estamos tratando nesta sessão solene, tão diferente de outras, também muito dignas, que esta Casa já produziu. Mas esta, para mim, é muito especial.”

 

Com a palavra o SR. CARLOS SANTANA – Bom dia a todos. Para mim este é um momento histórico desta Casa que define a vida do povo brasileiro e que ou nos deixa satisfeitos ou revoltados com as medidas que edita… Neste momento, então, lanço a todos um desafio: daqui a um ano vamos novamente realizar essa solenidade, mas vamos começar lá na Catedral de Brasília e descer até este Plenário. Faremos uma grande marcha para comemorarmos os 101 anos da religião Umbanda, as comemorações não encerram agora, temos mais um ano pela frente. Do fundo do coração, agradeço à companheira Sandra ter trazido esse texto, que é uma coisa linda. Espero estar no lançamento do livro do Alexandre Cumino que vai falar sobre tudo o que o companheiro Deputado Vicentinho acabou de ler. Esse livro demonstra para a sociedade que temos de ter a nossa intelectualidade. Isso, para nós, é extremamente importante. Muitas vezes dizem que nós somos analfabetos, semi-analfabetos, isso e aquilo outro… Quando falo da necessidade de fazermos uma grande marcha, é porque não agüento mais ir a casas que têm de ser escondidas, que têm de ser atrás não sei de quê, que têm de ser no final da comunidade carente, em que as pessoas não podem usar todos os seus apetrechos. Eu não agüento mais essa situação… E o preconceito nesta Casa é enorme – enorme. Aproveito para convidar o pessoal de Brasília para nos ajudar pelo menos uma vez por mês. A partir do ano que vem, uma vez por mês, vamos pedir que um local desta Casa, como uma sala de comissão, seja destinado para fazermos o nosso culto. E o faremos até para mostrar às pessoas que estão aqui, porque, se juntarmos Câmara e Senado, teremos um contingente maior do que o de muitas Prefeituras. Então, vamos começar por aqui, vamos mostrar a eles. E vamos fazer palestras, vamos trazer os nossos intelectuais para dar palestra aqui, internamente. Vamos ganhar o coração deles. Se eles não vierem, pelo menos que não nos vejam com preconceito, não fiquem como agora. No aeroporto, de manhã, quando as pessoas viam o nosso pessoal com todo os nossos artefatos, com as nossas roupas, achavam que é carnaval. Muitos não sabem o que é a Umbanda. E, aí, quando chegam no aeroporto, têm de pedir licença para colocar a mão na cabeça, e têm de tirar todas as guias, isso e aquilo outro. Essa é realidade que vivemos… 

Gostaria de terminar, dizendo que sou o autor do projeto que estabelece o dia 15 como o Dia Nacional da Umbanda. Seria muita pretensão instituir um feriado. Esse projeto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e – pasmem – , até hoje, não saiu de lá! Iria direto para o Senado, pois era de caráter terminativo, e não houve requerimento para vir ao plenário, mas não foi para o Senado até hoje. Eu queria que um dia, para não parecer que o Deputado estaria agindo por orientação da religião, os senhores viessem conversar com os membros da Comissão e perguntem porque não saiu da CCJ. Eu sei, mas espero que outros descubram por que o projeto não saiu da Comissão de Constituição e Justiça, por que não foi para o Senado. Se não querem, que façam um requerimento, e vamos levar a disputa para o Plenário. Podemos até perder, mas vamos perder satisfeitos… Quero dizer ainda que estamos fazendo história, porque daqui a 10, 15 anos todos vão se lembrar do primeiro encontro da Umbanda em Brasília neste Plenário. Quando surgiu a Câmara, era preciso ter 20 moedas de ouro para se candidatar, mas nós operários conseguimos, sem moedas de ouro, estar aqui. Isso é fruto de toda uma luta que aconteceu no passado e que vai continuar. Muito axé no coração de todos! Espero continuarmos nessa caminhada. Obrigado.

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Ao ser convidado para fazer uma oração, Pai Cássio Ribeiro emocionou-se e emocionou os presentes, evocando nossas Entidades, lembrando a todos o lema da Umbanda que é a prática da caridade, da fé e do amor,  disse que umbandista não quer 10% de dízimo de ninguém, mas sim 100% da fé, do amor, da prática da caridade,  despedindo-se com um axé pra quem é de axé e laroiê pra quem é de laroiê. E finalmente um atabaque soou no Plenário com o nosso Hino da Umbanda !

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Foto: Dep.Carlos Santana, Dep. Vicentinho, Sandra Santos e Cássio Ribeiro

 

Lembremos sempre que:

 

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”
 
As Fotografias foram colhidas no site de imagens oficiais:
http://www.camara.gov.br/internet/bancoimagem/default.asp?data=10/11/2008
Fotógrafos EdsonSantos: Foto 01, 02
Luiz Alves: Foto 03, 04

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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